Por que Pessoas Inteligentes (e Cautelosas) Também Caem em Golpes?
Quando ouvimos falar em "golpe do empréstimo" ou "fraude do contrato", é comum surgir um pensamento equivocado: "Só cai quem é muito ganancioso ou ingênuo".
Como advogados que lidam diariamente com as consequências devastadoras do estelionato, podemos afirmar categoricamente: isso é um mito perigoso.
Em nosso escritório, recebemos médicos, engenheiros, empresários, servidores públicos e pessoas extremamente cautelosas que, para sua própria surpresa, se tornaram vítimas. A verdade é que o perfil da vítima de golpe hoje em dia é, simplesmente, qualquer pessoa.
A culpa nunca é da vítima. A responsabilidade é 100% do criminoso. Mas por que, então, pessoas inteligentes e instruídas caem nessas armadilhas?
A resposta não está na falta de inteligência, mas na sofisticação da engenharia social usada pelos golpistas.
1. A Exploração da Vulnerabilidade
O golpista não procura alvos "tolos"; ele procura alvos em momentos de vulnerabilidade específica.
A pessoa que precisa urgentemente de capital de giro para salvar sua pequena empresa.
O cidadão que busca consolidar dívidas para limpar o nome.
A família que procura o financiamento para realizar o sonho da casa própria.
Nesses momentos, a necessidade emocional ou financeira fala mais alto. O golpista não vende "dinheiro fácil"; ele vende a solução para um problema que tira o sono da vítima.
2. A Engenharia Social: Manipulando a Percepção
O estelionatário moderno é um especialista em psicologia e marketing. Ele não age como um criminoso óbvio; ele age como um "consultor financeiro" prestativo.
Ele usa táticas deliberadas para desarmar nosso ceticismo:
Gatilho de Autoridade: O golpista usa jargões técnicos, apresenta contratos que parecem oficiais (como vimos em nosso artigo anterior, com Brasão da República, selos falsos e QRCodes) e se esconde atrás de um CNPJ. Tudo é feito para parecer legítimo e burocrático.
Gatilho de Urgência: "Essa taxa de juros é só até hoje", "Se não pagar a taxa de liberação agora, o processo volta para o início". A pressão impede a vítima de fazer o mais importante: parar, pensar e consultar. Uma decisão racional leva tempo; uma decisão emocional é imediata. O golpista força a segunda opção.
Gatilho de Empatia (Rapport): O golpista passa dias ou até semanas conversando com a vítima pelo WhatsApp, criando um falso laço de confiança. Ele ouve os problemas da vítima, se mostra compreensivo e se posiciona como o "facilitador" que irá resolver tudo.
3. A Vergonha: A Segunda Arma do Golpista
O sentimento que mais ouvimos de clientes que foram vítimas é: "Estou com vergonha de ter caído nisso."
E é exatamente com isso que o golpista conta.
A vergonha impede a vítima de contar para a família, de procurar amigos e, pior, impede a vítima de procurar a polícia e um advogado imediatamente.
A vítima fica paralisada, tentando "resolver" a situação sozinha, muitas vezes pagando mais taxas na esperança de reverter o prejuízo. Enquanto isso, o criminoso ganha o tempo precioso de que precisa para transferir os valores, fechar a conta-laranja e desaparecer.
Conclusão: Inteligência não é Imunidade
Ninguém está imune a um criminoso que dedica 100% do seu tempo a aperfeiçoar métodos de manipulação.
Cair em um golpe não é um atestado de falta de inteligência. É um atestado de que, do outro lado, havia um especialista em fraude que explorou um momento de necessidade.
Se você foi vítima, entenda: você não é "bobo". Você foi enganado. E a única forma de combater o crime e buscar seus direitos é quebrar o ciclo da vergonha e agir imediatamente.
Este artigo tem caráter informativo. A consulta jurídica formal com um advogado de sua confiança é indispensável.
Dr. Francisco Sales Advocacia & Consultoria

