Sinais de Alerta na Comunicação: O Golpista Sempre Tem Pressa

Em nossa análise de contratos fraudulentos, focamos muito nos documentos: o CNPJ falso, a assinatura copiada, o selo inválido. No entanto, o golpe não começa no papel. Ele começa na conversa.

O estelionatário moderno é um mestre da engenharia social e da comunicação persuasiva. Ele sabe que, se lhe der tempo para pensar, você desistirá. Portanto, toda a estratégia dele é baseada em pressa e pressão.

Como advogados acostumados a analisar não apenas documentos, mas o comportamento e o modus operandi de criminosos, identificamos um padrão claro na comunicação usada em golpes.

Estes são os sinais de alerta que aparecem antes mesmo de você ver o contrato.

1. O "Consultor Facilitador": Simpatia que Desarma

O primeiro contato não é com um burocrata de banco, mas com um "consultor" ou "analista financeiro" extremamente prestativo.

  • Comunicação 100% informal: Todo o processo ocorre por WhatsApp. Ele responde rápido, usa emojis, manda áudios em tom amigável e se mostra profundamente interessado em "ajudar" você a resolver seu problema.

  • Ele "Resolve Tudo": Você não precisa ir ao banco, não precisa de um gerente, não precisa daquela burocracia "chata" das instituições tradicionais. Ele promete "pular" etapas e "facilitar" sua vida.

Essa simpatia é uma tática deliberada. Ela cria um falso laço de confiança (rapport) e faz a vítima baixar a guarda. Ela se sente "bem cuidada" por alguém que está resolvendo seu problema, quando, na verdade, está sendo preparada para o abate.

2. A "Taxa" Inesperada: Onde o Golpe se Concretiza

Depois de alguns dias de conversa, o "facilitador" vem com a grande notícia: "Seu crédito/financiamento foi APROVADO! Parabéns!"

A vítima fica eufórica. O problema dela está resolvido. É neste exato momento de euforia que o golpe acontece. O golpista diz:

"Para a liberação do valor, falta apenas o pagamento de uma pequena taxa..."

Essa taxa recebe nomes técnicos para parecer oficial:

  • "Taxa de IOF reverso"

  • "Seguro Fiança do Banco Central"

  • "Custo de liberação da Receita Federal"

  • "Pagamento do Cartório para registro"

Não importa o nome, o padrão é o mesmo: é um valor (geralmente entre R$ 300 e R$ 2.000) que deve ser pago antes de receber o dinheiro. Além disso, o pagamento é quase sempre via PIX para uma conta de Pessoa Física ou um CNPJ que não tem nada a ver com a suposta instituição financeira.

Lembre-se da regra de ouro: Instituições financeiras sérias NUNCA pedem pagamento adiantado para liberar um empréstimo. As taxas são descontadas do próprio valor liberado.

3. A Urgência: O Terrorismo Psicológico

É aqui que a pressa se torna pressão. O golpista nunca diz: "Pague a taxa quando puder". Ele diz:

  • "Você precisa pagar essa taxa agora, ou o sistema vai cancelar sua aprovação."

  • "Essa condição especial de juros só vale pelas próximas duas horas."

  • "Se o pagamento não cair até as 17h, o processo volta para o início e você perde a vez."

Essa urgência artificial é criada com um único objetivo: impedir que você pense.

O criminoso sabe que, se você tiver tempo, você vai parar e pensar: "Espera, isso faz sentido?". Você pode pesquisar no Google, pode ligar para seu banco ou, o pior pesadelo dele, pode consultar seu advogado.

A pressão psicológica é tão intensa que a vítima age por impulso, movida pelo medo de perder a "grande oportunidade" que, na verdade, é uma armadilha.

Conclusão: Desconfie da Facilidade

No mundo jurídico e financeiro, processos existem por um motivo: segurança. A burocracia, embora lenta, é um filtro contra fraudes.

O golpista ataca exatamente aí. Ele oferece um atalho, uma solução rápida, sem burocracia e com um atendimento "amigo". Se uma oferta parece fácil demais, rápida demais e boa demais para ser verdade... ela provavelmente não é verdade.

Sempre que se sentir pressionado a tomar uma decisão financeira imediata, não tome a decisão. Diga que vai analisar. Desligue o telefone. E, antes de assinar ou transferir qualquer valor, consulte um advogado.

Este artigo tem caráter informativo. A consulta jurídica formal com um advogado de sua confiança é indispensável.

Dr. Francisco Sales Advocacia & Consultoria

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